República Velha (1889–1930): o Brasil do café, do coronel e do povo

A República Velha — ou Primeira República, de 15 de novembro de 1889 ao movimento de 1930 — é o período em que o Brasil trocou de regime sem trocar de dono: saiu o imperador, ficaram as oligarquias. Mas é também a era em que o povo urbano entrou em cena, se revoltou, se organizou e inventou cultura como nunca. Este volume da Biblioteca de História conta as duas repúblicas que coexistiram: a dos coronéis e a das ruas.

A república dos governadores

O arranjo político tinha três engrenagens que todo vestibular cobra e toda cidade pequena conheceu na pele. A política do café com leite: o revezamento informal de paulistas e mineiros na presidência, sustentado pela economia cafeeira. A política dos governadores, selada por Campos Sales: o governo federal não mexia nos estados, os estados garantiam maioria no Congresso. E na base de tudo, o coronelismo: o chefe local — o coronel da Guarda Nacional, dono de terra e de votos — trocando o “voto de cabresto” do eleitorado dependente por favores de cima. Eleição a bico de pena, ata inventada, oposição degolada na verificação de poderes: a fraude não era desvio do sistema, era o sistema.

A república das ruas

Contra esse arranjo, o período fervilhou de revoltas que viraram capítulos clássicos. Canudos (1896-97), o arraial de Antônio Conselheiro no sertão baiano, destruído pelo Exército em campanha que Euclides da Cunha transformou em Os Sertões. A Revolta da Vacina (Rio, 1904), quando a obrigatoriedade da vacina contra a varíola, imposta de cima numa cidade em reforma que expulsava os pobres do centro, virou barricada. A Revolta da Chibata (1910), o levante dos marinheiros liderados por João Cândido contra os castigos corporais na Marinha. E o tenentismo dos anos 1920 — dos 18 do Forte à Coluna Prestes — corroendo o regime por dentro até 1930 derrubá-lo.

1892: o ano que interessa a esta casa

No Rio de Janeiro recém-republicano, capital em modernização nervosa, um episódio miúdo de 1892 diz muito sobre o período: o Barão de Drummond, para salvar o zoológico de Vila Isabel, criou um sorteio de bichos que em semanas escapou do portão e virou a loteria paralela do povo — o jogo do bicho, cuja história completa o acervo vizinho documenta. É a República Velha em miniatura: o Estado moderniza por decreto, o povo responde inventando instituições próprias — o bicho, o samba nascendo na Pequena África, as irmandades, o futebol de várzea. Onde a política fechava a porta, a cultura popular abria a janela.

Economia, imigração e cidade

O café pagou as contas e redesenhou o país: atraiu milhões de imigrantes — italianos, portugueses, espanhóis, japoneses a partir de 1908 — para as fazendas paulistas e depois para as fábricas; financiou a urbanização que fez de São Paulo metrópole e do Rio uma Paris tropical de fachada, com cortiço demolido e morro ocupado logo atrás. A crise de 1929 quebrou a espinha do modelo agroexportador, e a Revolução de 1930, com Getúlio Vargas, fechou o ciclo — levando junto o arranjo do café com leite, mas não o coronelismo, que apenas trocou de roupa.

Perguntas frequentes

O que foi a política do café com leite?
O revezamento informal entre as oligarquias de São Paulo (café) e Minas (pecuária/leite) na presidência, sustentáculo político da Primeira República.
O que foi o voto de cabresto?
O voto controlado pelo coronel local, num sistema de voto aberto e fraudável — a base eleitoral do coronelismo.
Quais as principais revoltas do período?
Canudos (1896-97), Vacina (1904), Chibata (1910), o Contestado (1912-16) e o ciclo tenentista dos anos 1920.
Por que 1892 importa para este site?
É o ano de nascimento do jogo do bicho no Rio — o caso exemplar de instituição popular criada à margem do Estado que o acervo vizinho documenta dia a dia.

Nota do acervo: verbete de divulgação. Para aprofundar: Carvalho (Os Bestializados), Leal (Coronelismo, Enxada e Voto), Sevcenko (Literatura como Missão) e Euclides da Cunha (Os Sertões).