Gato preto dá azar? A história completa da crendice

Nenhum animal pagou tão caro por uma crendice quanto o gato preto. O mesmo bicho que foi venerado como divindade no Egito Antigo virou, na Europa medieval, sinônimo de bruxaria — e atravessou o Atlântico com essa fama torta. Este verbete do acervo de crendices e simpatias conta a história inteira: de onde veio o medo, por que ele é uma injustiça histórica e em quais países o gato preto é, ao contrário, um ímã de sorte.

Do trono egípcio à fogueira medieval

No Egito dos faraós, gatos eram associados à deusa Bastet, protetora do lar e da fertilidade — matar um gato, mesmo sem querer, podia custar a vida do responsável. A queda começa na Europa cristã da Idade Média: pregações do século XIII passaram a associar o gato preto a rituais heréticos e ao próprio demônio, e uma bula papal de 1233, a Vox in Rama, descreveu o animal em cerimônias supostamente diabólicas. Dali em diante, o gato preto virou o suposto companheiro das mulheres acusadas de bruxaria — e foi perseguido junto com elas.

O detalhe trágico: há quem argumente que a matança de gatos ajudou a piorar as epidemias de peste, já que menos gatos significava mais ratos. A crendice, além de injusta, teria cobrado um preço sanitário.

Como a fama chegou ao Brasil

A superstição desembarcou com a colonização portuguesa e encontrou terreno fértil no imaginário popular. Aqui ela se fixou numa cena específica: o gato preto que cruza o caminho. A regra oral diz que se ele atravessa da esquerda para a direita, o azar é certo; há quem mande voltar três passos, benzer-se ou simplesmente esperar outra pessoa passar primeiro para “levar” o azar. Nada disso tem registro em fonte antiga — é a crendice fazendo o que ela faz melhor: gerar variantes em cada esquina.

Onde o gato preto dá sorte

A fama negativa está longe de ser universal. No Reino Unido e no Japão, cruzar com um gato preto é bom presságio; na Escócia, um gato preto desconhecido aparecendo na sua porta anuncia prosperidade; marinheiros britânicos embarcavam gatos pretos como amuleto de viagem segura. Ou seja: o mesmo bicho, fama oposta — prova de que a crendice diz mais sobre quem acredita do que sobre o gato.

O gato na cultura da sorte brasileira

Curiosamente, no jogo do bicho — o grande catálogo brasileiro de animais e sortes — o gato ocupa o grupo 14 da tabela dos 25 sem carregar nenhum estigma: é palpite comum, associado à esperteza e à independência. E nos sonhos, gato costuma falar de intuição e de traição à espreita, preto ou não. A cor, no fim, importa menos do que o contexto.

A leitura de hoje

Abrigos e protetores de animais relatam há anos que gatos pretos demoram mais para ser adotados — efeito direto de uma crendice de oitocentos anos. Campanhas modernas tentam virar o jogo lembrando o óbvio: azar mesmo é do gato. Se a superstição é memória cultural, que fique no acervo — e fora da decisão de quem adota.

Do caderno do acervo

Registros soltos que completam o dossiê do bichano. Em Salém, nos julgamentos de 1692, bastava um gato rondando a casa da ré para virar “evidência” — o ponto mais baixo da carreira jurídica do animal. Na direção oposta, os pescadores ingleses pagavam caro por um gato preto de bordo, e suas esposas guardavam outro em casa como seguro da viagem: o mesmo bicho, apólice dupla. E o Brasil contribuiu com o folclore urbano da sexta-feira 13, dia em que abrigos de vários estados suspendem adoções de gatos pretos por precaução contra maus-tratos — a crendice medieval ainda ditando protocolo em pleno século XXI é, talvez, o registro mais eloquente deste verbete.

Perguntas frequentes

Gato preto cruzando o caminho dá azar?
É crendice medieval europeia, sem qualquer base além da tradição. Em vários países, o mesmo encontro é sinal de sorte.
De onde vem a associação com bruxas?
Da Europa do século XIII em diante, quando pregações e processos de bruxaria pintaram o gato preto como companheiro demoníaco.
Ter gato preto em casa atrai coisa ruim?
Pela tradição escocesa, atrai prosperidade. Pela experiência de quem tem, atrai pelo no sofá. Escolha a crendice que preferir.
E no jogo do bicho, gato é que grupo?
Grupo 14, dezenas 53 a 56 — sem distinção de cor. O verbete completo está na tabela dos 25 bichos.

Nota do acervo: registro documental de crendice popular. O Nethistória cataloga a tradição — e torce pela adoção dos pretinhos.